Em 2021, com um panorama bastante desafiador pela frente, muitas instituições de saúde seguem na tentativa de mapear e monitorar os cenários em que os eventos adversos acontecem (ou costumam acontecer), na intenção de facilitar sua compreensão e, é claro, evita-los.
Mas o que são esses eventos adversos? Qual sua relação com a segurança dos pacientes? Como a Covid-19 impacta diretamente nisso?
É o que relatamos a seguir junto do Dr. Lucas Zambon, Diretor Científico do Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente (ISBP).
Um estudo realizado em 2017 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) apontou que um evento adverso não significa necessariamente um erro, negligência ou baixa qualidade na assistência.
Significa uma falha — relacionada à terapêutica ou ao diagnóstico — que trouxe um resultado assistencial indesejado. O dano, apesar de evitável, pode ocasionar em incapacidade física e psíquica, mortes e/ou custos adicionais.
Entre as falhas mais sutis estão sofrimento, perda de dignidade e respeito, além de elevar os custos assistenciais. E os eventos mais comuns para que os danos aconteçam são:
Para se ter ideia, a OMS apresentou dados de que cerca de 10% das internações que ocorrem anualmente no mundo são decorrentes de eventos adversos, que vão desde administrações equivocadas de medicamentos até óbitos. Mas esses dados são anteriores à Covid-19.
A pergunta que fica é: em meio à pandemia, o que muda com relação aos eventos adversos e a segurança do paciente?
A Covid-19 impactou a rotina das instituições de saúde e dominou todos os debates em torno da saúde no Brasil desde fevereiro de 2020, quando foi diagnosticado o primeiro caso de infecção pelo vírus no país. A questão da segurança do paciente também sofreu mudanças dentro — e fora — das instituições de saúde.
Dentro dos hospitais, gestores e profissionais precisaram priorizar e criar diretrizes com relação à conduta e manejo clínico para casos de pacientes que chegassem à instituição com sintomas da Covid-19.
Tudo para que houvesse maior agilidade no atendimento, no diagnóstico e no tratamento da doença — o que está diretamente relacionado à segurança do paciente.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o conceito de segurança do paciente se refere à redução, a um mínimo necessário, de riscos de danos desnecessários associados à assistência em saúde. A entidade ainda prioriza outros desafios: estimular a higiene das mãos para reduzir infecções relacionadas aos cuidado em saúde, promover cirurgias mais seguras, e diminuir os erros com medicamentos.
Durante a pandemia, a temática ganha ainda mais amplitude porque a segurança do paciente vai além do ambiente hospitalar e dos casos relacionados diretamente à Covid-19. Ela abrange os pacientes infectados que estão em casa, aqueles que não estão com o vírus e precisam frequentar o hospital, os que tinham cirurgia eletiva que foi desmarcada, os pacientes crônicos e outros eventos que ocorrem dentro do hospital.
E, por mais que o cenário seja em meio a uma doença até então desconhecida e que alterou toda a rotina das instituições, é preciso priorizar as diretrizes que prezam pela segurança do paciente e propagar ações que eliminam ou reduzem riscos de eventos adversos.
Em setembro de 2019, antes mesmo da pandemia começar, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia divulgado uma informação alarmante: cerca de 50% dos eventos adversos que ocorrem ao redor do mundo são evitáveis. O que aconteceu com a chegada do novo coronavírus? “A pandemia acabou por fragilizar a segurança do paciente”. Isso é o que afirma o Diretor Científico do Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente, Lucas Zambon.
Para ele, a sobrecarga no sistema de saúde, causada pelo grande excesso de casos graves e complexos de Covid-19, trouxe muitos riscos e fez com que o cenário se tornasse propício aos eventos adversos.
“O pano de fundo é o fato de estarmos diante de uma doença nova, para a qual tínhamos pouco conhecimento sobre seu comportamento ou alternativas terapêuticas. Associado a isso, temos a gravidade dos casos e seu grande volume, gerando sobrecarga de trabalho nos profissionais de saúde, além da escassez e dificuldade de acesso a recursos (leitos hospitalares, oxigênio, ventiladores mecânicos, medicamentos para suporte à vida e sedação, entre outros), favorecendo eventos adversos em maior quantidade”, diz Zambon.
Em 2021, o cenário segue desafiador e outros pontos irão carecer de (ainda mais) atenção.
A pressão e o aumento da carga horária durante toda a crise pandêmica comprometem a força de trabalho da saúde. Estudo do último trimestre de 2020 sugere que um em cada três médicos esteja sofrendo de Burnout — o que interfere na qualidade da assistência prestada, além do próprio bem-estar.
O medo da contaminação pelo novo coronavírus — e agora por suas variantes — provocou um maior represamento de atendimentos e diagnósticos relacionados a outras doenças.
O tema já havia sido antecipado por Pascoal Marracini, diretor-presidente da Associação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Combate ao Câncer (ABIFCC). Em webinar realizado pela Wareline em parceria com a Fehosp ele alertou que antes mesmo da pandemia já havia uma demanda reprimida de pacientes oncológicos para chegar a serviços especializados – “para se ter ideia, no Rio de Janeiro quase 2 mil pacientes aguardavam por um serviço de radioterapia. Havia ainda locais em que o paciente levava quase um ano para conseguir uma colonoscopia”.
O Tribunal de Contas publicou um relatório em 2019 sobre a política de oncologia e trouxe a informação de que o paciente estava levando 143 dias entre a primeira consulta na unidade básica de saúde até o início do tratamento.
Após o início da pandemia, como os serviços de atenção básica e os ambulatórios de especialidades suspenderam temporariamente consultas, exames e biópsias, o serviço de assistência diagnóstica e terapêutica também acabou sendo represado.
A preocupação dos próximos meses é, portanto, buscar tratar esses pacientes em tempo hábil relativo dentro dos estágios da doença.
Os profissionais de saúde observaram aumento nas infecções desde o início da pandemia. Segundo estudo divulgado pelo Becker’s Hospital Review, houve crescimento de 27,8% nas infecções de corrente sanguínea associadas a cateteres vasculares, de 21,4% nas infecções do trato urinário associadas ao uso de sondas urinárias e 17,6% em pneumonias associadas à ventilação mecânica.
Ainda antes da pandemia algumas instituições já trabalhavam com núcleos específicos voltados à segurança do paciente, a fim de minimizar problemas e falhas que poderiam vir a ocorrer.
Há inclusive instituições que usam os módulos da Wareline e que instituíram, antes da Covid-19 chegar aos hospitais, núcleos de segurança do paciente. É o caso da Santa Casa de Ituverava, da Santa Casa de Valinhos e do Hospital Estadual de Francisco Morato.
Os três hospitais são exemplos práticos de como as instituições de saúde podem ser mais transparentes e garantir cada vez mais segurança a seus pacientes e profissionais. Você pode conhecer de perto as ações desenvolvidas por cada organização na nossa revista ConecteInfo e em um de nossos cases.
Agora, há novas diretrizes e recomendações relacionadas à Covid-19 que devem ser somadas ao trabalho intenso que vinha sendo feito. Algumas delas são:
> Criação de uma equipe de comunicação e gestão de risco;
> Realização de treinamentos de Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) e Programa de Controle de Infecções Hospitalares (CCIH);
> Desinfecção dos ambientes e estruturas;
> Entre outras medidas relacionadas ao bem-estar dos profissionais de saúde e pacientes.
Se você quer saber mais sobre o assunto, aguarde o podcast de Lucas Zambon, Diretor Científico do Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente, que estamos preparando aos nossos clientes, amigos e parceiros.