Quem Te Inspira: Dra. Silvia Brandalise estreia série

2022-04-26T12:07:38-03:00 07/04/2022|

Quando pensamos em profissionais respeitados da área médica, com trajetória de luta pela ciência, pela saúde brasileira e em prol de um atendimento humano, justo e eficaz, um dos primeiros nomes que vem à mente é o da Dra. Silvia Brandalise.

 

Membro-fundador do Centro Infantil Boldrini, maior hospital especializado da América Latina, Dra. Silvia tem uma história de vida dedicada ao câncer pediátrico. Ela centralizou o atendimento e permitiu o acesso a modernos tratamentos de maior eficácia e menor toxicidade. É uma das profissionais que trabalhou para edificar os pilares da oncologia pediátrica no Brasil — e ainda vem trabalhando!

 

Por toda sua história e em alusão ao Dia Mundial de Combate ao Câncer, comemorado em 8 de abril, é ela quem abre a nova série da Wareline, intitulada “Quem Te Inspira”.

 

Fizemos uma pesquisa com profissionais que atuam em instituições de saúde de todo o Brasil para saber quem era sua referência em saúde, sua “inspiração”. Sem surpresa, o nome da Dra. Silvia estava na lista.

 

Em meio à sua rotina intensa, ela dedicou um tempo para nos dizer como enxerga esse reconhecimento, contar um pouco de sua trajetória e o que espera do futuro para a saúde da criança brasileira com câncer. Confira!

 

Quem é a Dra. Silva Brandalise?

 

Filha de um português comerciante e de uma costureira, Silvia Regina Brandalise se apaixonou pela Medicina ainda na adolescência, ao ler um artigo de jornal. A história que a inspirou foi a do médico alemão Albert Schweitzer, que também tinha grande reputação como músico e prestígio como pastor de uma igreja.

 

Schweitzer deixou sua carreira na Alsácia (leste da França) para improvisar um consultório e cuidar dos desassistidos na República do Gabão. Por seus serviços prestados à população africana, ele recebeu o Nobel da Paz em 1952.

 

Na época em que se encantou por essa história, a Dra. Silvia talvez não imaginasse que, um dia, seria ela a inspirar tantas outras pelo Brasil — e mundo — afora. Graduou-se em Medicina pela UNIFESP em 1967, fez residência em Pediatria na mesma faculdade e concluiu o doutorado em 1975, pela UNICAMP.

 

Quando sua carreira como pediatra deslanchava, ainda na década de 70, se sensibilizou com a história de duas crianças diagnosticas com câncer. Na época, inconformada com os baixos índices de cura do câncer infantil, transferia o cuidado destes doentes para os médicos de adultos especializados em oncologia ou hematologia. Mas essas duas crianças portadoras de leucemia guinaram sua trajetória: emocionalmente pressionada, migrou para a oncologia pediátrica e criou o que viria a ser o Centro Infantil Boldrini.

 

A história do maior hospital especializado da América Latina começou no porão de um sobrado em frente à Santa Casa de Campinas, onde criou um laboratório de coagulação. Em 1978, com apoio do Clube da Lady de Campinas, foi fundado o Centro Infantil Boldrini, que passou a funcionar em uma casa alugada. O prédio do Hospital que vemos hoje nasceu anos mais tarde, em 1986.

 

De lá para cá, virou referência em qualidade médica e humanitária no tratamento de doenças onco-hematológicas em crianças, adolescentes e jovens adultos. Já atendeu cerca de 30 mil pacientes encaminhados com suspeita ou diagnóstico de câncer ou de doenças hematológicas.

 

Nos dias atuais, a professora aposentada da UNICAMP, médica e presidente do Boldrini continua participando das atividades, sempre com olhar atento para cada criança. Quando não está em cena na Medicina e no Ensino, procura por ambientes tranquilos, sem barulho, para ler livros sobre a História da Humanidade, Filosofia, Artes e histórias de grandes pensadores, pintores e escritores.

 

Dra. Silvia não tem interesse em shoppings e nem em baladas, como ela própria diz. Prefere as músicas clássicas, os blues e o samba-canção.  Sente-se bem quando acompanhada do marido, dos filhos e netos. Uma pessoa com prazeres “comuns” e uma história de muita inspiração.

 

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Wareline – A senhora é uma das profissionais mais respeitadas da área médica no Brasil e no mundo. Inspira muitas pessoas — tanto que foi citada na pesquisa que fizemos para os profissionais da saúde, intitulada “Quem Te Inspira”. Como enxerga esse reconhecimento e por quais fatores avalia que inspira as pessoas?

 

Dra. Silvia Brandalise – Todos nós inspiramos algo de bom (ou mal) aos que nos cercam. Durante minha carreira de professora de Pediatria, recebi muitas homenagens dos alunos de Medicina que ressaltavam o meu forte e incansável comprometimento na formação acadêmica dos mesmos. Entretanto, em sussurros, diziam que eu era uma professora muito exigente e brava — mas sempre com um sorriso nos lábios.

Na prática médica, agradeço a Deus pela oportunidade de ter conhecido, em 1970, a pobreza da Pediatria da UNICAMP, que funcionava na Santa Casa de Misericórdia de Campinas. Nesta desolação, aprendi a ser “pedinte”. Pedia cobertores, lençóis, seringas descartáveis, etc. Enfrentando a pobreza, incorporei os conceitos básicos da boa administração. Para a criança doente, buscávamos o melhor tratamento. Passei a ter fama de médica competente, contudo vista como intransigente.

 

Wareline – E como gostaria de ser vista?

 

Dra. Silvia Brandalise – Simplesmente como um ser humano que procura dar o melhor de si na concretização dos seus objetivos. Carregando os meus traços fortes e os fracos em equilíbrio.

 

Wareline – Quando você iniciou sua trajetória na oncologia, o índice de cura do câncer em crianças e adolescentes era bastante diferente do que é hoje, que chega a cerca de 80% em centros especializados como o Boldrini. Como é ser uma das pessoas que sempre lutou para que essa realidade fosse possível?

 

Dra. Silvia Brandalise – Nestas últimas 4 décadas, aumentaram significativamente as taxas de sobrevida para as crianças com câncer, principalmente nos países desenvolvidos. Fui inspirada inicialmente pelo Protocolo VIII do St.Jude Children’s Research Hospital, criando o Grupo Brasileiro de Tratamento da Leucemia da Infância (GBTLI) e coordenando o primeiro Protocolo GBTLI LLA-80.

 

Foi uma relevante experiência, que elevou as taxas de sobrevida das nossas crianças brasileiras de menos de 5% para 40%. Com os protocolos subsequentes, aumentaram estas taxas de sobrevida, estando hoje ao redor de 80% no Boldrini. Simplesmente segui modelos internacionais, em consonância com a nossa realidade.

 

Wareline – Quais foram os maiores desafios que vivenciou nesse período?

 

Dra. Silvia Brandalise – Um grande desafio foi trazer, em 1980, a primeira Asparaginase (enzima utilizada como terapia oncológica para leucemias agudas) para o Brasil. O Ministério da Saúde não aprovou a compra. A alternativa que encontrei, junto a uma agência de turismo de Campinas, foi pedir para viajantes ao exterior que me doassem um frasco deste medicamento.

 

Graças à solidariedade, conseguíamos os frascos em número suficiente para tratar as crianças com leucemia linfoide aguda. Nenhuma delas registradas no protocolo deixou de receber esta medicação.

Wareline – Avalia que ainda temos mais a evoluir, pensando em diagnóstico e tratamento para o câncer infantil?

 

Dra. Silvia Brandalise – No Brasil ainda temos muito a evoluir. Não somente no diagnóstico precoce do câncer pediátrico, como no acesso irrestrito aos medicamentos essenciais (reconhecidos pela OMS), no tratamento realizado em centros especializados de câncer pediátrico.

 

Wareline – Como o nosso ambiente atual é diferente do que era antes, pensando em causas e impactos do câncer infantil?

 

Dra. Silvia Brandalise – Existem grandes grupos de pesquisadores internacionais estudando qual a razão para uma incidência crescente do câncer da criança. Além da associação com alguns tipos de vírus (HIV, EBV), produtos tóxicos ambientais chamam muito a atenção — principalmente os derivados do petróleo (benzeno, tolueno, xileno, etc.), além dos produtos agrotóxicos.

Tudo o que lesa o material genético (DNA, RNA) carrega o risco da teratogênese (más formações congênitas) ou da carcinogênese (que provoca câncer), além da possibilidade de dano ao sistema imunológico e ao sistema nervoso central.

 

O Centro Boldrini foi convidado a participar de grupo vinculado ao IARC (International Agency for Cancer Research) e à OMS (Organização Mundial da Saúde). Esta participação estreita com diferentes grupos de investigadores e epidemiologistas nos remete a uma grande tarefa que se projeta no futuro para se vislumbrar uma possível prevenção do câncer pediátrico.

 

Wareline – E, falando em futuro, o que espera para a saúde da criança brasileira com câncer?

 

Dra. Silvia Brandalise – Ainda há muito por fazer no Brasil. Desde reformas na grade curricular das faculdades de Medicina, incluindo o tema “Câncer” como obrigatório no currículo, como mudanças estruturais e
financeiras na saúde pública, promovendo maior interação entre as Unidades Básicas de Saúde, os níveis secundários e terciários de Atenção. A transversalidade do cuidado e a implantação de uma linguagem única no SUS, devidamente acordada entre os diferentes níveis da Atenção Médica, é um desafio.

 

Com base neste raciocínio, eu poderia parecer uma pessoa pessimista. Pelo contrário, isso se transforma no desejo de participar ativamente desta mudança.

 

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Não é por menos que a Dra. Silvia Brandalise inspira tantos profissionais da área da saúde — e também de outras áreas que olham para sua trajetória de humanidade, luta, competência e profissionalismo. É bom saber que ela está disposta a participar ativamente das tantas outras mudanças que virão.

 

Nós, da Wareline, também estamos. Um dos nossos focos está em entregar soluções que otimizem a rotina do Boldrini e melhorem a qualidade e segurança do atendimento às crianças, adolescentes e jovens adultos com câncer. Conheça mais sobre o sistema da Wareline!

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