Durante os debates globais da COP30, a Amazônia voltou ao centro do cenário internacional, e junto com ela, dois projetos brasileiros se tornaram símbolo de impacto social e inovação: os Barcos Hospital São João XXIII e Papa Francisco. Atuando em algumas das áreas mais remotas do país, essas embarcações têm desempenhado um papel essencial no cuidado à população ribeirinha e ganharam espaço na mídia nacional justamente por representarem, na prática, aquilo que a conferência discute: sustentabilidade, inclusão e transformação.
Para compreender melhor esse impacto, conversamos com Diego Catelani Forte, Coordenador de TI dos barcos hospitalares, que acompanha de perto a operação e os desafios enfrentados pela equipe.
Segundo Diego, a repercussão na COP30 foi extremamente positiva. O destaque trouxe visibilidade para a realidade da população ribeirinha e reforçou a importância do trabalho prestado pelas equipes de saúde voluntárias. Para o projeto, esse reconhecimento amplia parcerias e abre novas portas de apoio. Já para as comunidades atendidas, significa ver suas necessidades e dificuldades alcançarem o debate público nacional, algo fundamental para promover políticas mais sensíveis às particularidades da região.
A relação com as pautas da COP30 é direta. Diego explica que o trabalho dos barcos hospitalares unifica impacto social, inovação e sustentabilidade em uma única iniciativa. As embarcações foram projetadas para funcionar de maneira ambientalmente responsável: possuem tratamento completo de resíduos, sistema de purificação de água e protocolos rigorosos para garantir que nada seja descartado de forma inadequada. Tudo é pensado para preservar o ecossistema amazônico enquanto se leva atendimento às populações mais isoladas.
A operação dos barcos é extensa e organizada em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas. São realizadas duas expedições por mês, e já conta com mais de 300.000 atendimentos, em 1000 comunidades, com 5 anos de operação, percorrendo municípios como Parintins, Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Maués, Urucurituba, Itaquatiara, Novo Aripuanã, Manicoré, entre muitos outros. Cada expedição conta com profissionais de saúde voluntários que se credenciam para prestar atendimento. Dentro das embarcações, há uma estrutura completa: consultórios médicos e odontológicos, salas de exames, farmácia, áreas administrativas e espaços dedicados às equipes.
Os barcos operam com 32 profissionais fixos, apoio de 7.500 voluntários, e estão ancorados no Terminal Hidroviário de Icoaraci.

De acordo com Diego: “A rotina da tecnologia da informação nesse contexto é bastante particular. A equipe de TI tem papel fundamental na operação, é responsável por garantir que tudo esteja funcionando antes da viagem, já que, em campo, os recursos são limitados. Testes, verificações, preparação de equipamentos e conferência do sistema são essenciais. Durante a navegação, ele integra os médicos voluntários ao Conecte/W, apresenta as rotinas que precisam ser seguidas e garante que todos consigam registrar atendimentos. Após as expedições, é ele quem organiza os dados e indicadores que serão utilizados tanto pelas áreas internas quanto nos processos de faturamento SUS.”
Ele lembra que, antes da digitalização, todo o trabalho era feito em fichas impressas. Isso resultava em alto volume de papéis, processos manuais demorados, retrabalho e falhas nas reposições de insumos. Com a adoção de um sistema hospitalar integrado, o cenário mudou significativamente. O prontuário eletrônico trouxe agilidade, segurança e rastreabilidade. O acesso rápido aos dados facilitou o faturamento SUS, a gestão dos materiais, a reposição de medicamentos e a entrega de indicadores aos órgãos fiscalizadores.
Além dos benefícios já percebidos com a digitalização, Diego destaca que alguns módulos do sistema hospitalar Conecte/W são fundamentais para que a operação funcione de maneira organizada e eficiente em um ambiente tão desafiador quanto a Amazônia. O módulo de Estoque permite controlar insumos e ainda gerar relatórios de medicamentos entregues às famílias ribeirinhas, garantindo continuidade do tratamento depois do atendimento. Já a Requisição Eletrônica é essencial para a estrutura administrativa dos barcos, pois ajuda a mapear processos e a visualizar a demanda real de cada setor. No âmbito assistencial, o módulo de Faturamento simplifica a entrega dos dados do SUS e consolida a volumetria de produção das expedições, enquanto o SADT permite registrar e acompanhar todos os exames realizados a bordo. Para organizar o fluxo dos atendimentos, o Painel de Senhas orienta os pacientes dentro da unidade flutuante e reduz gargalos. E, no centro de tudo, o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) garante acesso rápido às informações clínicas, possibilitando decisões médicas mais ágeis e seguras, algo decisivo em regiões remotas, onde cada minuto conta.
Além disso, a comunicação entre sistemas ganhou estabilidade e organização, mesmo em regiões de conectividade limitada. A digitalização deixou de ser apenas uma ferramenta e se tornou parte estratégica da operação, garantindo continuidade, eficiência e maior qualidade assistencial.
Os Barcos Hospital São João XXIII e Papa Francisco representam hoje um dos projetos mais relevantes de acesso à saúde no Brasil. São exemplo de como tecnologia, logística e cuidado humano podem transformar realidades, especialmente em territórios onde a infraestrutura é um desafio constante. O destaque na COP30 não só projeta o trabalho para o mundo, como reforça a importância de iniciativas que aliam inovação, responsabilidade ambiental e impacto social direto.
Mais do que um case de tecnologia na saúde, esse projeto mostra que, quando a gestão eficiente se combina com soluções digitais e um propósito claro, é possível levar atendimento a quem mais precisa, mesmo nos lugares onde muitos acreditam ser impossível chegar.