O Design Thinking é importante para a Saúde?

Durante palestras e eventos de inovação quando eu converso com as pessoas e falo que uso a abordagem do Design Thinking na empresa, a primeira pergunta que fazem é sempre essa. Logo em seguida, as pessoas me perguntam se faço trabalhos gráficos, artísticos ou crio as telas dos sites e aplicativos. Bem, não faço nenhum dos três. Por que será que as pessoas associam o termo Design a trabalhos gráficos, artísticos ou a criação de softwares? A resposta a esta pergunta nos ajudará a entender melhor o que é Design Thinking.
Se fossemos definir de forma bem direta o que é Design Thinking, eu diria que é uma abordagem para resolver problemas de qualquer área (saúde, por exemplo) e de qualquer natureza. Mas quando e como surgiu esse termo? Para responder isso, precisamos voltar um pouco no tempo. Na Alemanha do século 19, mais precisamente em novembro de 1919, surgiu uma nova escola de design, arquitetura e artes plásticas que foi chamada de Bauhaus, que também veio a ser o nome de um novo movimento.
Ela foi a primeira escola de design do mundo, e um dos principais propósitos dessa escola foi o aperfeiçoamento dos produtos industrializados pois, até então, as fábricas levavam em consideração principalmente o aspecto funcional dos produtos. Ou seja, cada produto tinha sua função bem definida, mas a experiência de uso e a estética eram deixadas de lado. A Bauhaus vinha para resolver esse problema, ela tinha o processo, os métodos e as técnicas para projetar (design, em inglês) produtos que eram ao mesmo tempo: funcionais, com boa experiência de uso e que tinha um apelo estético, era belo também (pense por um momento no iPhone, um exemplo contemporâneo). Eles acreditavam que isso tinha um impacto enorme na vida das pessoas, as boas experiências de uso deixariam as pessoas mais felizes e realizadas.
O movimento/escola conseguiu durante muito tempo unir a academia e o mercado, trazendo um novo valor agregado que até então a indústria nunca tinha visto, mas infelizmente isso durou até a 2ª Guerra Mundial, quando os Nazistas destruíram a escola. Mesmo após o fim da segunda guerra mundial, o movimento Bauhaus seria silenciado durante muito tempo. Enquanto isso, no outro lado do mar, nos Estados Unidos, o país viveu de 1945 até 1970 o que ficou conhecido como a Era de Ouro, pleno emprego e sucesso dos negócios para todos os lados. Nos negócios, quase tudo que era produzido era um sucesso, todo mundo queria comprar, mas essa realidade começou a mudar na década de 70, recessões e crises vieram, a indústria precisava reagir.
No começo da década de 70 nos EUA, a indústria se articulava junto à academia para retomar o design, mas, durante a retomada, o foco principal era para o design ajudar na publicidade e vendas dos novos produtos da indústria, com embalagens mais bonitas e materiais gráficos elegantes para a divulgação. Nessa retomada, a essência do design foi esquecida…até 1992.
Em 1992, foi publicado um artigo chamado “The wicked problems in design thinking”. O artigo trazia uma discussão do conceito de design e sua natureza, que não era da disciplina de design em si, mas que ganhava sentido nas outras áreas, uma vez que era uma abordagem para resolver problemas e criar soluções inovadoras de qualquer área, de qualquer natureza. é por isso, inclusive, que o Arne Van Oosterom, fundador da DesignThinkers Group, chama de Design Thinking a cola das disciplinas. Nessa busca para resgatar a essência do Design, passaram a chamar de Design Thinking, um sobrenome para ajudar na ressignificação e distinção do sentido retomado pela indústria na década de 70. Neste processo de resgate, que terminou por ampliar ainda mais o conceito de Design Thinking, e passou a ser uma forma de resolver problemas de negócios, sistemas, produtos, serviços de qualquer área e natureza. Na década de 90, surgiram várias empresas de tecnologia no Vale de Silício, muitas usaram o Design Thinking. O 1º mouse da Apple, a baleia usada na gravação do filme Free Willy em Hollywood e a estratégia de crescimento e linhas de novos produtos e serviços da Samsung (quando ninguém conhecia a empresa ainda), são exemplos bem característicos de uso de Design Thinking.
Por que o Design Thinking é importante para a Saúde?
O Design Thinking é importante para a saúde porque ele pode ajudar a criar soluções inovadoras, de alto impacto, sem necessariamente precisar investir muito para isso acontecer. Por meio dessa abordagem, é possível catalizar soluções pontuais, assim como trazer soluções mais holísticas para o sistema de saúde como um todo.
Um bom exemplo é a rede de hospitais da Kaiser Permanente, nos Estados Unidos. A Kaiser já trabalha a bastante com o Design Thinking, e tinha um problema que gostaria de resolver. Num relatório que foi publicado em 1999, chamado “The err is human: building a safer health system”, era possível encontrar um dado bem preocupante, os erros com administração de medicamento era o responsável pela morte de 7 mil pessoas por ano, além de deixar 1 milhão e 500 mil pessoas com sequelas e custar 3 bilhões e 500 milhões de dólares aos Estados Unidos. A Kaiser Permanente chamou especialistas de Design Thinking para ajudar a resolver esse problema.
Durante o processo de criação da solução, que passa por entender bem a realidade das pessoas e criar empatia com elas, percebeu-se que um dos pontos mais críticos que levava aos erros era as interrupções durante o procedimento. A partir daí enfermeiras e outros profissionais de saúde co-criaram diversas soluções, várias delas foram testadas e iteradas diversas vezes até se chegar num modelo que fizesse sentido e resolvesse efetivamente o problema. Após várias iterações, chegaram a essa solução abaixo:
A imagem acima são alguns exemplos que as enfermeiras junto com outros profissionais de saúde criaram a confiança criativa e prototiparam durante os workshops. A partir dessas soluções que elas criaram, desde faixas que as pessoas usam para receber premiações até colete típico de guarda de trânsito, que são todas soluções super simples e baratas, eles conseguiram criar impacto gigante. Só para vocês terem um ideia, essa solução foi testada em quatro sedes da Kaiser Permanente e reduziu em 50% os erros durante a administração de medicamentos e aumentou a confiança dos pacientes nos profissionais de saúde durante a administração de medicamentos de 33% para 78%. Lembra dos dados que citamos acima? Já imaginou o impacto disso implantado em grande escala? Solução simples e super inovadora, fruto do uso da abordagem de Design Thinking. Após a solução ser encontrada, parece óbvio, claro, mas tornar algo que antes era um mistério em óbvio é desafiador e, quando se consegue, podemos chamar de inovação. Muitas dos produtos e serviços que usamos hoje era um mistério em um dado momento da histórico, mas hoje é comum. Há 20 anos atrás quem achava que seria tão fácil se comunicar como fazemos hoje com nosso Smartphone?
Isso é algo que diferencia o Design Thinking das outras abordagens, ele vê o mundo a partir de três lentes: a lente do desejo e necessidade de ser humano (a partir da criação de empatia e entendimento de problema), a lente de que é viável tecnicamente (ou seja, que temos tecnologia ou podemos desenvolver para um dado problema) e a lente de que é viável para o mercado (é sustentável para o negócio). Todas as soluções de Design Thinking têm essa característica.
*Autor: André Diniz Moraes, design thinker associado à Design Thinkers Group Brasil, consultoria internacional de inovação presente em 14 países.
Fonte: Saúde Business
2015-10-06T00:00:00-03:00