Interoperabilidade: um caminho para a gestão em saúde

Ao redor do mundo, a adoção de prontuários eletrônicos do paciente (PEP) e de padrões de interoperabilidade acontece de maneira diferente. Enquanto o Brasil ainda caminha a passos lentos, Estados Unidos e Reino Unido seguem pioneiros no intercâmbio de dados entre instituições.

 

“Na saúde privada, onde há uma ampla utilização de sistemas de prontuário eletrônico, é praticamente nula a troca de informações clínicas digitalizadas de um paciente entre diferentes instituições ou unidades de saúde, às vezes pertencentes ao mesmo grupo econômico”, afirma Joel Formiga, assessor do gabinete da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.Ainda que o entorno desse atendimento seja fortemente digitalizado – exames clínicos, de imagem, agendamento de eventos médicos, dispensação de medicamentos, sumários de alta, registro de visitas de agentes comunitários de saúde, planilhas de acompanhamento de pacientes crônicos; a troca de informações ainda não acontece.

 

Na rede pública o tema é ainda distante: Para se ter uma ideia da disparidade, em São Paulo, em quase 90% das unidades do sistema de saúde pública municipal o atendimento ainda é em papel.

 

Não há dúvidas de que a interoperabilidade trará mais agilidade e qualidade para a saúde brasileira. No entanto, os desafios para que ela se torne algo real são grandes e envolvem questões tecnológicas, legais, econômicas e administrativas. Para deixar de ser algo incipiente, é necessária uma mudança gradual envolvendo governo, instituições de saúde e empresas de tecnologia.

 

No post de hoje você acompanha um panorama geral sobre como está a padronização de dados, suas vantagens e o que falta para ela ser uma realidade por aqui.

 

Interoperabilidade: o que é e suas vantagens

No setor da saúde, a interoperabilidade é a capacidade que os diversos sistemas da informação e aplicativos de software têm de se comunicar, trocar dados e utilizar as informações trocadas.Contar com ela significa reduzir custos de operação de aplicações, agilizar a comunicação e tornar as empresas mais eficientes.

Dentro do conceito da saúde, por permitir o acesso às informações médicas registradas nos diversos sistemas de informação, a interoperabilidade representa maior autonomia e engajamento do paciente e de seus familiares em seu tratamento.

 

O pré-requisito para que ela seja realidade é uma padronização de dados nas informações sobre a situação de saúde dos pacientes que são cadastradas nos prontuários eletrônicos e no sistema da instituição, já que isso possibilita o compartilhamento das mesmas entre os médicos e enfermeiros, que poderão tomar decisões embasadas e mais efetivas.

 

No Brasil

Aqui no Brasil, contamos com algumas codificações para intervenções e eventos em saúde, principalmente codificações destinadas à representação de procedimentos médicos para reembolso. Entre as mais conhecidas estão Tabela de Procedimentos do SUS (Sistema Único de Saúde) e a TISS (Troca de Informações na Saúde Suplementar), iniciativa da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) com o intuito de regular e padronizar as informações trocadas na saúde suplementar.

 

Como o contexto de terminologias é variado, para que os diferentes e diversos sistemas públicos e privados possam intercambiar informações, é preciso seguir o padrão de interoperabilidade, que seria o uso de um conjunto de padrões e terminologias adequados a serem adotados pelos governos, desenvolvedores de sistemas e fabricantes de equipamentos e dispositivos médicos.

 

Desde 2011, a Portaria 2073/2011 do Ministério da Saúde (MS) regulamenta o uso de padrões de interoperabilidade e informação em saúde para sistemas de informação em saúde no âmbito do SUS, nos níveis Municipal, Distrital, Estadual e Federal, e para os sistemas privados e do setor de saúde suplementar. Ali, entre outras determinações, ficou estabelecido que para a definição do Registro Eletrônico em Saúde (RES) será utilizado o modelo de referência OpenEHR e para estabelecer a interoperabilidade entre sistemas, com vistas à integração dos resultados e solicitações de exames, será utilizado o padrão HL7 – Health Level 7.Para codificação de termos clínicos e mapeamento das terminologias nacionais e internacionais em uso no país, visando suportar a interoperabilidade semântica entre os sistemas, será utilizada o SNOMED-CT, disponível em http://www.ihtsdo.org/ snomed- ct/.

 

 

Empecilhos para a interoperabilidade

 

Se existem todas estas definições no sentido da padronização na área da saúde, é difícil entender como é que ainda não foi possível alcançar o nível desejado de integração entre sistemas.

 

Para Joel Formiga, assessor do gabinete da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, alguns fatores interferem no atraso da padronização. “Há barreiras tecnológicas, pois a interoperabilidade não é algo simples, apresentando desafios tanto na normalização dos dados que são gerados em sua origem em desalinho com protocolos, o que exige um esforço de tradução para permitir o compartilhamento desses dados, quanto na indexação de pacientes – Master Patient Indexem inglês – que é a prática de encontrar a mesma identidade de um paciente em registros distintos em que os dados cadastrais possam não ser exatamente compatíveis, seja pela grafia do nome ou multiplicidade de CNS´s”, ressalta.

 

Renato Sabbatini, professor doutor, diretor da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), vice-presidente da HL7 no Brasil e consultor em interoperabilidade afirma que, para a interoperabilidade sair do discurso e ir para a prática é preciso que hospitais, laboratórios, clínicas, operadoras e demais agentes de saúde incorporem protocolos e padrões vendor-neutral – aqueles que não possuem ligação com uma marca específica – para que todos os sistemas se conversem automaticamente, sem a necessidade de intervenção humana.

 

Segundo o especialista, no futuro haverá a interoperabilidade de dados clínicos, graças ao ClinicalDocumentArchitecture (CDA), um padrão complexo, que precisa também do HL7, e que o governo vai adotar para que os sistemas conversem entre si, tanto saúde suplementar quanto o SUS. O movimento será motivado por órgãos locais e mundiais, como Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde,que pouco a pouco tornam obrigatórios os processos.

 

Paulo Eduardo Goulart, analista de sistemas da Wareline, reforça a ideia de que é fundamental um programa faseado e incentivado pelo Ministério da Saúde. “Diferentemente do que aconteceu na TISS, em que a ANS determinou um padrão obrigatório, definiu um prazo e os interessados se adaptaram gradualmente, com a interoperabilidade isso ainda não aconteceu. Aqui é necessário um alinhamento quanto ao modelo a ser utilizado e o estabelecimento de uma data limite para a adequação. Assim, todos os players, sejam os desenvolvedores de software, os hospitais ou as clínicas, estariam mais seguros para avançar sentido à padronização. A obrigatoriedade e orientação correta dos registros de dados podem viabilizar a interoperabilidade no país”, reflete Paulo Eduardo.

 

Interoperabilidade e vantagens

 

Cases de sucesso no mundo:

 

Espanha

A Espanha é um país modelo quando a questão é interoperabilidade. Um caso de sucesso é o projeto Prontuário digital, iniciado em 2006.  Ele possibilitou o acesso controlado à informação de um paciente a partir de qualquer local de atendimento, seja primário ou especializado.

 

Uma outra iniciativa começou em 2015. O projeto prevê que a receita eletrônica seja interoperável em todo o país. Entre os benefícios esperados, além da comodidade para aqueles que se deslocam pelo território, está o maior controle dos medicamentos e, consequentemente, da segurança para os pacientes.

 

México

No México, os avanços no compartilhamento de dados são bem expressivos. Na capital do país, um projeto de digitalização e acesso compartilhado aos dados dos pacientes em tempo real foi recentemente executado.

Com fichas clínicas implantadas na rede de 30 hospitais da Cidade do México, foram englobados os dados de quase 900 mil atendimentos, 1,6 milhão de diagnósticos, 1,8 milhão de documentos clínicos, 335 mil prescrições referentes a 9.150 usuários e uma população atendida de 4.200.000 pessoas. Em dois anos, os benefícios sentidos foram:

  • aumento da segurança do paciente
  • atendimento contínuo deles a partir de qualquer local de atendimento da capital
  • mais eficiência do sistema de saúde
  • diminuição dos custos de repetição de testes: as informações passaram a ser compartilhadas e usadas em tempo real.

 

Outro projeto inovador é a Certidão de Nascimento Eletrônica (CNE), na qual são registradas as informações de cada recém-nascido do país. Integradas com o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), reunirá dados como suas doenças, vacinações, acidentes, hospitalizações, entre outros. Trata-se de grande avanço em matéria de acesso e direitos aos serviços de saúde, um formato único para cada paciente, que garante sua identidade e protege seus direitos.

2018-01-26T11:36:07-02:00