Interoperabilidade: o desafio dos sistemas de e-Saúde

A evolução da saúde no país e no mundo depende de diversos fatores. Um deles é que é preciso de empatia por parte dos desenvolvedores de sistemas de gestão hospitalar para que os softwares, mesmo de empresas diferentes, possam “conversar”, compartilhando as informações necessárias para o bom atendimento do paciente. Confira a notícia:

Na luta contra doenças, cada milésimo de segundo é vital para garantir a manutenção da saúde dos pacientes. E, nesse sentido, contar com informações integradas e padronizadas sobre o histórico da pessoa enferma é a principal estratégia dos estabelecimentos de saúde para correr contra o tempo. Por isso, seja em soluções tecnológicas ou na adoção de padrões de nomenclatura, os investimentos em interoperabilidade emergem como uma demanda cada vez mais urgente das empresas no setor, pois podem permitir, por exemplo, que os dados do paciente atendido em um hospital de São Paulo fiquem disponíveis em estabelecimentos do Rio de Janeiro.

A gerente de marketing da Wareline, Paula Usier, lembra que interoperabilidade é a capacidade de dois ou mais sistemas trocarem informações, independente do software de gestão utilizado. “E, para que essa troca seja viável, são necessários padrões de linguagem”, esclarece. De acordo com ela, hoje, os maiores problemas de interoperabilidade do setor envolvem o estabelecimento de padrões de nomenclatura e não necessariamente questões tecnológicas. “Muitos sistemas internos dos hospitais não conversam somente por uma questão de custo”, avalia Paula.

Com a mesma opinião, o CEO da Unit Care e presidente do capítulo Brasil da Continua Health Alliance, Luiz Tizatto, destaca que há interesse comercial dos fabricantes em utilizar padrões próprios, de forma a tornar o usuário refém dessa condição. “Quando a empresa cria um equipamento interoperável, aumenta o leque de concorrentes, pois o seu produto pode ser facilmente substituído”, destaca Tizzato.

Para ele, o maior problema da baixa interoperabilidade entre os sistemas envolve a dificuldade de acesso ao histórico dos pacientes. “Se a pessoa é atendida pela primeira vez em um lugar diferente do habitual, não há como acessar seus dados históricos, as cirurgias feitas e suas alergias”, lamenta o presidente. De acordo com ele, por isso, operadoras de saúde verticalizadas e integradas, que utilizam um sistema de prontuário único, têm menor redundância de exames. Isso ocorre, pois, muitas vezes, o paciente não leva as análises anteriores quando visita pela primeira vez o médico, de forma que o profissional precisa solicitar novamente exames que podem já haver sido feitos. “Não se deve tomar uma decisão clínica com base somente no depoimento do paciente”, justifica.

Ao avaliar o cenário descrito por Tizzato, o presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), Marco Antonio Gutierrez, afirma que os laboratórios tendem a enfrentar os piores problemas em relação à interoperabilidade, na medida em que os exames apresentam muitas especificidades, incluindo o método por meio do qual o procedimento foi realizado e sua faixa de valor. “Neste caso, só o uso do TUSS (Terminologia Unificada da Saúde Suplementar), por exemplo, não funciona, já que o padrão só serve para comunicação com o convênio”, destaca. Já o TISS (Troca de Informação para Saúde Suplementar), explica, padroniza o vocabulário médico e define a troca da informação no nível da comunicação entre os sistemas, se apoiando em nomenclaturas como o CID (Código Internacional de Doenças).

Para Gutierrez, não faltam padrões no mercado, já que há modelos bem estabelecidos, como é o caso do DICON (Digital Imaging and Communications in Medicine) e o HL7 (Health Level Seven), capazes de resolver boa parte dos mecanismos para integração. No entanto, os modelos não resolvem os problemas de nomenclatura e semântica médica. “Eles determinam os protocolos de comunicação para transmitir as informações sobre os pacientes entre as empresas do setor, mas para saber como registrar o conteúdo desses documentos, também é preciso contar com padrões como o CID (Código Internacional de Doença)”, esclarece, destacando que o HL7 pode ser usado para transmitir texto livre, sem conteúdo semântico.

Avanços

Em relação ao HL7, Paula, da Wareline, o considera um dos principais do mercado, na medida em que foi criado por uma organização sem fins lucrativos e inclui as áreas de administração, avaliação e distribuição dos serviços de saúde. “Ao investir em interoperabilidade, as empresas poderão relacionar diagnósticos atuais a doenças e condições prévias, reduzindo erros médicos. Além disso, a gestão financeira das instituições também tende a melhorar, evitando a repetição de exames já realizados”, defende Paula.

Em linha com os pensamentos de Paula, o diretor-executivo do Instituto HL7 no Brasil, Marivan Santiago Abrahão, comenta que a complexidade da informação no setor de saúde, bem como sua origem diversa, exige a criação de padrões de dados, de forma a garantir um diálogo integrado dentro e fora das empresas. “Os protocolos de comunicação e intercâmbio permitem que as aplicações clínicas se comuniquem, gerando benefícios às empresas e aos pacientes”, reforça.

Abrahão acredita que o problema da maioria dos padrões nacionais, como a tabela de procedimentos do SUS (Sistema único de Saúde) e AIH (Autorização de Internação Hospitalar), é o fato de eles terem sido construídos não pela qualidade dos padrões que representam, mas motivados pela necessidade de cobrar e controlar faturamento, como é o caso do TISS, elaborado pela ANS (Agência Nacional de Saúde Complementar). “Por outro lado, antes dele, cada convênio operava com um modelo para solicitar informações e os hospitais tinham um trabalho imenso com a tarefa”, diz. Ainda para Abrahão, a grande vantagem do HL7 é abranger o ciclo de vida completo de uma especificação de padrões.

Integração na prática

Hospital filantrópico que atende pacientes do SUS, convênios e casos particulares, a Santa Casa de São José do Rio Preto, cliente da Wareline, registra 60 internações e 180 atendimentos no ambulatório ao dia. Motivada pelo aumento significativo na demanda por informações dos pacientes em tempo real, passou a investir em interoperabilidade em 2009 para poder trabalhar com dados armazenados em diferentes bases.

“Criamos procedimentos estratégicos, fluxos e processos para coletá-los e transformá-los em indicativos que servem de apoio às decisões da alta gestão”, explica o gerente de TI, Leonardo Vizoná. Isso significa que o projeto para melhorar a interoperabilidade do hospital baseou-se na adoção de um sistema de Business Intelligence (BI), desenvolvido internamente pela gestão tecnológica. De acordo com Vizoná, a solução coleta informações em diferentes formatos e as insere em uma base de dados repositória, utilizada para elaborar indicadores sobre pacientes e relatórios administrativos.

Aliado à adoção da ferramenta de BI, a Santa Casa também investiu na gestão unificada dos seus processos de trabalho, por meio da aquisição de um datacenter. “Com isso, hoje, todos os nossos processos são virtualizados e oferecem alta disponibilidade e segurança das informações”, enfatiza Vizoná, comentando que o hospital já investiu R$ 450 mil em projetos para integrar seus ambientes.

Já como desafios, ele aponta a necessidade de garantir a confiabilidade das informações que circulam pelo ambiente de TI, pois a entidade ainda perde muito tempo analisando a integridade dos dados. “Os médicos têm de executar alguns processos de forma manual, entre eles buscar procedimentos ou CIDs para fornecer diagnósticos imediatos”, explica. Por isso, os próximos investimentos devem envolver a adoção de ferramentas tecnológicas que permitam ganhar tempo na análise e processamento das informações.

Fonte: SaúdeWeb

2013-11-14T00:00:00-02:00