Hospitais privados sentiram na veia os efeitos da crise

O ano passado foi problemático para todos, o que trouxe resultados não muito bons também na área da saúde. A conclusão é de Francisco Balestrin, Presidente da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados). Segundo Balestrin, os números de 2016 estão cada vez mais parecidos com os de 2014 em diversos aspectos, então 2015 é um ano a se “esquecer”. “Sentimos na veia”, diz o médico, para quem, entre os prejuízos ocasionados pela crise, a redução de margem para os hospitais e seu endividamento são mais alarmantes.
Confira a entrevista na íntegra.
CI: Qual foi o principal prejuízo da crise para os hospitais privados?
FB: Muitos hospitais estão endividados. Muitas instituições se endividaram para cobrir as suas necessidades e até mesmo para realização de obras. 
Em 2015, a recessão e a forte retração na demanda da economia brasileira mudaram a conjuntura, de modo que os hospitais tiveram de readequar seus planos de investimento e o controle das despesas. O ritmo de crescimento da despesa total em termos nominais foi de 9,6% em 2015. Considerando a inflação do período pelo IPCA, observa-se em termos reais uma variação de somente 2,0% em 2015. 
A redução das margens operacionais observada nos últimos anos intensificou-se em 2015. A evolução do índice da receita líquida pela despesa total mostra que o segmento hospitalar está atingindo o limite de redução de margens.
Assim, o resultado da crise foi sentido diretamente na veia: os hospitais perderam margem; pois, apesar de ter havido crescimento de receita, ela foi menor que as despesas, em especial por causa do aumento tarifas públicas (energia, combustível, telecomunicações) e em decorrência da disparidade do câmbio, pois muitos insumos ainda são importados.

CI: Quais estados mais têm sofrido com a crise; ou seja, como foi sentido o impacto dessa crise por estado?
FB: A crise tem amplitude nacional. No entanto, a região Sudeste, por concentrar a maior parte das empresas, apresentou quase 50% do total de fechamento de vagas no primeiro semestre de 2016.
CI: Diante do cenário de crise que o País enfrenta, muitas pessoas perderam emprego e, consequentemente, se viram obrigadas a cortar seus planos de saúde. Para enfrentar esse momento incerto, muitos hospitais têm redefinido suas estratégias para manter pacientes e ganhar novos clientes. Vocês acompanham de perto a situação dessas instituições. Conseguem desenhar um panorama do que foi feito e seus resultados?
FB: No âmbito geral, percebemos uma redução das contratações, o case mix dos pacientes mudou, os prontos-socorros estão menos lotados e estamos apenas mais cautelosos em relação aos investimentos em expansão.
Observamos, também, um esforço dos hospitais em conter o ritmo de crescimento de suas despesas em um contexto de desvalorização cambial, aumento do custo do crédito e crescimento da inflação.
Nesse ano as coisas começaram a mudar um pouco e vemos nítidos sinais de melhora no ponto de vista gestão. Conseguimos aumentar eficiência, buscar melhores processos, tivemos um menor crescimento da folha de pagamento, conseguimos comprar menos. Acredito que a crise acabou ajudando a buscar alternativas para otimizar gastos e pessoal – o que teve como consequência o aumento do desemprego.
CI: Além de demissões, a acreditação foi uma solução encontrada por hospitais para melhorar seus processos e amenizar a crise. Vocês têm dados de quantos fizeram isso?
FB: Todos os hospitais associados titulares da Anahp possuem acreditação ONA III ou algum dos modelos internacionais, como JCI, Accreditation Canada e Niaho. As instituições associadas, por sua vez, possuem ONA I e II, ou estão em processo de acreditação, e têm o
prazo de quatro anos para se adequarem aos critérios exigidos para se tornarem associados titulares.

CI: Acredita que mudanças no sistema de remuneração da saúde suplementar (saindo do fee for service) pode ser benéfico? O que sugerir?
FB: Sim, essa é uma discussão antiga. O nosso modelo de remuneração é perverso e insustentável. Existem algumas alternativas em discussão no setor, e o DRG – uma metodologia de compra de serviços, gerenciamento de custos e da qualidade assistencial- hospitalar – apesar de não ser propriamente um modelo de remuneração, poderá contribuir neste processo. Algumas operadoras já manifestaram interesse em implementar o DRG na rede prestadora. Na Anahp também existe um projeto piloto.
CI: Qual sua percepção sobre a proposta do Ministro da Saúde, Ricardo Barros, sobre um Plano de Saúde mais acessível? Acredita ser algo viável? Quais outras soluções seriam viáveis no curto e longo prazo?
FB: Essa é uma questão que precisa ser muito bem pensada e exaustivamente discutida. Junto de outras entidades, fomos convidadas para compor um grupo de trabalho para estudar a viabilidade do convênio médico mais acessível.
2017-02-21T00:00:00-03:00