Entrevista: Paulo Mazzoncini de Azevedo Marques

2014-07-30T00:00:00-03:00 30/07/2014|
Coordenador e supervisor do Serviço de Física Médica e Radioproteção do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e diretor de Educação e Capacitação Profissional da SBIS (Sociedade Brasileira de Informática em Saúde), Paulo Mazzoncini de Azevedo Marques acompanhou de perto a evolução do Ensino a Distância (EAD) na área da saúde no país.
O profissional, que faz parte de diversos órgãos e instituições relacionados à tecnologia como o Núcleo RUTE (Rede Universitária de Telemedicina), também é professor do Departamento de Engenharia Elétrica e da Computação da Universidade de Calgary, no Canadá. Em entrevista à Wareline Conecta, ele explica como a tecnologia colabora para a educação na área da saúde.
WConecta: Como se deu o processo de implantação do EAD na SBIS e como ele funciona na instituição hoje em dia?
Paulo Mazzoncini de Azevedo Marques: O modelo de uso de ambientes de AE (Aprendizado Eletrônico) para a educação continuada em informática em saúde foi implantado pelo Prof. Renato Sabbatini, ex-diretor de educação, há aproximadamente 5 anos, quando foi criada a diretoria de educação e ele foi eleito para o cargo. O modelo implantado está baseado em um site (sbis.virtual.org.br), por meio do qual é oferecido um conjunto de mecanismos de educação continuada à distância, com conteúdos voltados para informática em saúde.
WConecta: Na sua visão, qual a importância da EAD para a educação de modo geral e, principalmente, na área da saúde?

Marques: A EAD é um recurso importante para ampliar o alcance das iniciativas de formação de recursos humanos e democratizar o acesso ao conhecimento nas diversas áreas, inclusive na área da saúde. Porém, deve-se destacar que, particularmente na área da saúde, existem habilidades e comportamentos específicos que somente podem ser adquiridos através da imersão nos ambientes de atenção à saúde, trabalhando-se sob supervisão de profissionais já formados. 
WConecta: No Brasil, como está a procura e oferta dos cursos à distância na área da saúde? é possível fazer um balanço utilizando a SBIS como base?
Marques: Via de regra, a oferta de cursos à distância na área da saúde está focada na qualificação profissional, através de programas de educação continuada, especializações, etc. A SBIS é um caso muito particular por estar focada em informática em saúde, que é bem específico, e por ser uma sociedade profissional e não efetivamente uma instituição de ensino. Se olharmos os ciclos de seminários, dependendo do tema abordado, temos um público em torno de até 50 participantes por palestra. Existem, porém, melhores exemplos de cursos em formato EAD para a área de informática em saúde, como o de especialização oferecido pela Universidade Aberta do Brasil (UAB), pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que na versão atual conta com mais de 500 alunos matriculados. 
WConecta: Quais tipos de cursos podem ser oferecidos por meio do sistema EAD na área da saúde? Por quê?
Marques: Esse modelo parece mais apropriado para a formação em pós-graduação, pois a formação profissional na saúde em nível de graduação exige um forte componente de atividades em serviço, que o modelo EAD, em geral, não oferece. 
WConecta: A cada dia mais pessoas procuram pelos cursos à distância. Na sua opinião, não ter um professor de corpo presente durante as aulas pode prejudicar o aprendizado?
Marques: Não prejudica, o professor está presente, não fisicamente e não necessariamente de modo síncrono. Mas, certamente, em um curso de qualidade a presença do professor será notada pelos alunos. Além disso, é comum que esses cursos contem também com tutores em suas equipes, que ajudam os professores no acompanhamento das atividades e apoio aos alunos. Se considerarmos esses aspectos, podemos até concluir que em um curso EAD temos mais professores envolvidos nas aulas do que no modelo presencial!
WConecta: Qual o principal benefício do EAD em comparação com os cursos presenciais?
Marques: Oferecer a oportunidade de se desenvolver as atividades necessárias conforme a disponibilidade de tempo do estudante, sem a necessidade de deslocamento físico de forma continuada. De qualquer forma, é comum o aluno ter que fazer as avaliações principais de forma presencial, em locais específicos. 
WConecta: Como os profissionais da saúde podem se beneficiar com o EAD?
Marques: No meu entendimento, o grande benefício está na possibilidade de programas de educação continuada e especializações, permitindo que o profissional continue se atualizando na sua área de conhecimento. 
WConecta: Esses cursos podem, de fato, colaborar de alguma forma para a melhoria do sistema de saúde brasileiro?
Marques: Acredito que sim! As experiências internacionais apontam que a qualificação profissional, através de programas de educação continuada, impactam positivamente na qualidade da atenção à saúde. No Brasil, embora exista também uma percepção de que isso é verdadeiro, ainda não temos indicadores bem estabelecidos que possibilitem uma avaliação efetiva desse processo. Isso ainda está sendo construído dentro de programas como o Telessaúde Brasil Redes, UNA-SUS e UAB.
WConecta: Você faria alguma crítica a este tipo de ensino? Qual?
Marques: No meu entendimento, muito mais do que uma crítica ao modelo em si, é necessária uma avaliação cuidadosa sobre em quais situações o EAD realmente pode ser útil e, principalmente, sobre qual é a instituição que a está utilizando, por qual motivo e para qual finalidade.
Texto publicado originalmente na revista Wareline Conecta – Edição 6 – Março/2014