Entrevista: Lucas Zambon e Heleno Costa Jr.

Entrevista Especial
Consenso entre a maioria dos profissionais de saúde, a priorização das medidas de segurança do paciente é necessária em todas as instituições. O principal fator que colabora para que essa cultura seja implementada de fato é a mudança no comportamento das pessoas. Mais do que recursos financeiros, a atitude da gestão e de cada um dos colaboradores é o que faz a diferença. Para falar sobre esse assunto, que também é o tema de capa desta edição, a Wareline Conecta conversou com dois especialistas  no assunto.
Um deles é o Dr. Lucas Zambon, diretor científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente, médico supervisor da disciplina de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e assessor de práticas assistenciais da Superintendência Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.
O outro é Heleno Costa Junior, gestor do Instituto de Conhecimento, Ensino e Pesquisa do Hospital Samaritano de São Paulo e autor do livro “Qualidade e Segurança em Saúde: os caminhos da melhoria via Acreditação Internacional”, lançado este ano pela DOC Content Editora.
Abaixo, você confere os melhores trechos da entrevista com cada um deles:
WCONECTA: Na sua percepção, o que significa para uma instituição ter a cultura da segurança?
Lucas Zambon: Significa ser capaz de identificar seus erros e aprender continuamente com eles, criando barreiras para que não se repitam.  E isso sempre da ótica do paciente, que é o foco desta cultura.
WCONECTA: Qual a diferença na segurança entre hospital público e privado?
Zambon: Atualmente é importante ressaltar que não existe hospital ideal. Todos têm falhas. As diferenças são mais em termos de recursos para se implantar políticas ou soluções para segurança do paciente, e os privados tendem a ter mais facilidade nesse sentido. Mas também é verdade que muitas soluções não dependem de investimentos pesados, apenas de mudanças no processo assistencial.
WCONECTA: Quais políticas e procedimentos podem ser implantados para garantir a segurança?
Zambon: O mínimo a ser implementado são as políticas descritas no Programa Nacional de Segurança do Paciente. Mas o número de intervenções já descritas estudamos o assunto, mais riscos identificamos e, portanto, mais políticas e protocolos precisam ser criados. Isso só prova como estamos apenas iniciando o trabalho nessa área.

WCONECTA: Como um software de gestão pode auxiliar a garantir a segurança do paciente?
Zambon: De diferentes maneiras, a começar pela gestão da informação. Ainda existe a possibilidade de se criar indicadores e gerenciá-los com base nesses dados. Pode-se ainda ver a aplicabilidade do controle de materiais e medicamentos e de custos. As possibilidades são inúmeras e todas podem ajudar, desde a alta gestão até a operação.



WCONECTA: Como a TI pode ser uma aliada para garantir a segurança?
Heleno Costa Junior: O departamento de Tecnologia de Informação deve ser considerado um integrante de relevância na cadeia de gestão ou de prestação de cuidados. O uso cada vez mais comum de tecnologias tem exigido uma articulação mais consistente entre os profissionais de saúde e os especialistas em TI. Não há, na atualidade, como uma instituição não considerar a necessidade de contratação e manutenção de uma área ou um serviço, mesmo que terceirizado, de suporte em TI.

WCONECTA: O que falta para o Brasil proporcionar mais segurança aos seus pacientes?
Costa Junior: é uma questão ainda preocupante. São muitos fatores a se considerar. Mas diria que um dos principais é a falta de consciência ou de reconhecimento do grau de importância que atos seguro  têm no conjunto de processos ou de atividades desenvolvidas na prestação de cuidados aos pacientes. Essa condição envolve não somente os profissionais que estão na ponta da cadeia de cuidados, mas os gestores e responsáveis pela definição das políticas, dos recursos ou dos meios necessários para a garantia da segurança. Embora lançado em 2013, digamos com muito atraso, pelo Ministério da Saúde, o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) ainda não teve o alcance esperado, pois depende da atuação e da consecução de seus protocolos e procedimentos nas três esferas, ou seja, no nível federal, estadual e municipal e muito pouco se avançou nesse cenário.
WCONECTA: Qual a sua percepção sobre o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) e demais programas/políticas do  Ministério da Saúde?
Costa Junior: Acredito que havia a necessidade do lançamento desse programa, no entanto, as bases de
sua execução ainda necessitam ser mais bem definidas, especialmente no que diz respeito aos papeis dos gestores e responsáveis nas instâncias estaduais e municipais. A RDC 36 da ANVISA, que veio como complemento desse programa, pouco avançou no seu objetivo. A falta de recursos básicos para garantir insumos e profissionais tem sido fator impeditivo para o progresso. Esperamos que novas perspectivas sejam previstas pelo Ministério da Saúde e que o programa tenha suporte suficiente para seguir em seus propósitos.
Matéria publicada originalmente na revista Wareline Conecta – Edição 11 – Janeiro, Fevereiro, Março/2016
2016-04-12T00:00:00-03:00