Conta de hospital particular é alta, complexa e impossível de checar

Com histórico de câncer de mama na família, ao completar 40 anos, em 2011, a pediatra paulista Andrea Torres Sanajótta deu início a uma rotina de exames para a detecção precoce da doença. Há dois anos e meio, os testes indicaram a existência de uma lesão pré-cancerosa. Em dezembro de 2015, outro achado anormal, de natureza mais agressiva. Em vez de extirpar o tecido doente, ela optou pela mastectomia dupla.
Apesar do medo e da angústia embutidos na escolha, do ponto de vista financeiro Andrea sentia-se tranquila. Nunca tivera problema com o plano de saúde contratado nos anos 2000. A pediatra preenchia os requisitos para a cirurgia, mas o convênio não a autorizou -liberou apenas a retirada da lesão. A operação só ocorreu mediante liminar. Mais tarde, os exames dos tecidos extirpados indicaram a presença de células cancerosas.
Se nada fosse feito, Andrea desenvolveria a doença. Devido à gravidade do caso, teve de passar por mais duas cirurgias.
O marido de Andrea, o anestesista Roberto, até tentou cotar quanto sairia o tratamento dela. Mas esse é um cálculo difícil de fazer. “Contas hospitalares são complexas, difíceis de apurar e não seguem nenhum padrão”, diz o advogado Rafael Robba, do escritório Vilhena Silva.
Um exemplo emblemático é o que ocorre com os remédios. Um antibiótico vendido na farmácia por R$ 35 custa o dobro ou mais para um paciente hospitalizado.
Em 2015, medicamentos, materiais e insumos hospitalares foram responsáveis por 45% de tudo o que entrou no caixa das instituições privadas de saúde. Taxas e diárias não chegaram a 18%.
O problema está no modo como as empresas de saúde suplementar remuneram os hospitais. O pagamento é feito pelo método “fee for service” (pagamento por serviço, em inglês). O dinheiro entra no caixa a cada procedimento realizado, exame feito, material usado, droga prescrita.
“O sistema privilegia a ineficiência. Quanto mais gasto, mais recebo”, diz o médico Walter Cintra Ferreira Júnior, coordenador do curso de administração hospitalar da Fundação Getúlio Vargas.
E a ineficiência custa caro. O modo como a saúde privada está estruturada no país é cenário ideal para o desperdício. Pelas estimativas de Francisco Balestrin, presidente da Associação Nacional de Hospitais Particulares, dos R$ 450 bilhões gastos com saúde em 2015, 20% foram para o lixo com uso exagerado de recursos, falhas na prestação de serviço e na formação de preços e fraudes.
Na mesma mesa da qual Balestrin participou no último Fórum A Saúde do Brasil, o presidente do Hospital Albert Einstein, Claudio Lottenberg, afirmou que o principal fator que encarece as contas hospitalares é a admissão de casos que não deveriam ser tratados ali, o que drena a receita das instituições.
“Hospital é um equipamento de alto custo fixo”, diz o professor Ferreira Júnior, da FGV. Aqui ainda prevalece a cultura do “hospitalocentrismo” -diante de qualquer alteração clínica, o brasileiro corre ao hospital.
“Se um procedimento que poderia ser feito em ambulatório acontece no hospital, é certeza de que dinheiro está sendo jogado pela janela”, diz Ferreira Júnior.
Seria simplismo reduzir os altos custos da saúde privada ao sistema de remuneração. Outra particularidade desse mercado é o fato de que as tecnologias não são substitutivas e, sim, incrementais. O raio-X não deixou de ser usado após a ultrassonografia; que não foi aposentada com a tomografia; que continuou, apesar da ressonância; que segue sendo indicada mesmo com o PET-Scan.
O tratamento do câncer de cólon é um exemplo do encarecimento dos custos, diz Setphen Stefani, oncologista do Hospital do Câncer Mãe de Deus, em Porto Alegre, e presidente do Comitê Latino Americano, da Sociedade Internacional de Farmacoeconomia e Estudos de Desfecho. No início da década, a média de sobrevida era de seis meses, ao custo mensal de US$ 200. Hoje, com medicamentos mais eficazes, pacientes ultrapassam os dois anos. Mas o gasto mensal com o tratamento é de US$ 10 mil.
O problema é a filosofia do “cheque em branco”, segundo a qual exames e tratamentos são exigidos só porque são a última novidade.
Um caso de exagero é o do stent farmacológico, usado na desobstrução das artérias do coração. A diferença entre ele e o tradicional está na liberação de medicamentos que reduzem o risco de entupimentos. Os farmacológicos custam seis vezes mais que os comuns e são indicados para diabéticos, vítimas de lesões extensas e portadores de vasos sanguíneos muito finos. Pois bem: no Brasil, esses pacientes são só 25% dos doentes, mas 80% dos que se submetem ao procedimento recebem o stent mais caro.
Fonte: Folha de São Paulo
2016-06-29T00:00:00-03:00